Somos hoje, e cada vez mais, o que na verdade sempre fomos: pessoas com sensibilidade artística e alguma técnica para expressão. E não devemos crer que haja nisso algo que nos torne seres humanos tão diferentes dos demais. Não seria difícil comprovar que todas as pessoas têm sensibilidade em algum grau, e que esta não é um produto da sensorialidade nem mesmo do estudo, pois que é inata. De alguma forma, todos têm idealismos e emotividades, todos têm perguntas sem respostas, e nenhuma destas coisas contudo, nem individualmente nem o seu conjunto, é suficiente para definir o artista. Duas predisposições importantes o caracterizam humanamente: primeira, a de desenvolver uma técnica que permita transpor a imaterialidade para um veículo físico, ao alcance da sensorialidade e da subjetividade dos demais; e a segunda (certamente a mais difícil e exigente) é a predisposição de se expor aos demais, tanto ou mais que expor a sua obra. Com maiores ou menores graus de lucidez e de propriedade, estas duas predisposições deságuam em uma terceira e decerto mais importante: o exercício de um papel existencial através da arte.
Fechando o foco para a
nossa União, somos um pouco mais, porque passamos a ser representados por uma pessoa jurídica formal e legalizada. Depois de mais de 30 anos de informalidade e diversas tentativas frustradas, finalmente rompemos as limitações da condição de informais e nos colocamos num limiar. E não
somente pela legalização da Instituição, mas também pelas pretensções que nos animam, que estão muito além daquelas que justificaram as tentativas anteriores dos antigos pintores do Largo da Carioca, de criar a sua
associação.
Ou seja, o berço é o mesmo, porém a
União já nasceu com
objetivos
mais amplos e bem delineados, e alguns
projetos de evento artístico
, previamente concebidos para se constituirem nos referenciais dos primeiros passos, e da eficiência da gestão. A
União foi criada por e para artistas plásticos prioritariamente, no entanto os seus objetivos extrapolam esta abrangência de linguagem artística, para avançar e interagir nas esferas cultural e social. Todos os que se sentirem dispostos a partilhar este trabalho de modo congruente, artistas ou não, pessoas físicas ou jurídicas, poderão participar, respeitando-se as definições estatutárias, em categorias distintas. A
União é, tal como explicita o seu estatuto, uma Instituição associativa sem fins lucrativos e impedida de praticar partidarismos políticos, mas comprometida com a modernidade, através de um
estilo gerencial
competitivo e predisposto a parcerias, públicas e privadas, que se afigurem propícias aos seus objetivos.
Pretende-se que os antigos pintores do largo da Carioca e da avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro, que sonharam diversas vezes com uma associação bem mais tímida, voltada para os seus interesses mais imediatos, afinal se orgulhem dos próprios esforços e da sua capacidade de resistência em defender o direito de expor arte em espaços públicos, como acontece em todos os países civilizados, nos quais o estado é cioso da cultura e da intelectualidade mas sem
mutilar o pleno exercício da cidadania dos seus artistas populares; e enfim se orgulhem sobremaneira os
mais velhos da magnitude de objetivos que se pretendem a partir do seu respeitável nicho artístico. Porque essencialmente somos hoje o que sempre fomos: pessoas com sensibilidade artística, alguma técnica para a sua expressão, e um longo e irrecusável histórico de participação no seio de incontáveis famílias, e de ambientes profissionais, através da produção artística tantas vezes renitente e injustamente perseguida, por alguma forma de injustificável preconceito administrativo.